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História da África, Período Colonial

John Iliffe – A invasão Colonial

RESENHA

ILIFFE, John. Os Africanos: historia de um continente. Lisboa: Terramar, 1999. Captulo 9, A invasão colonial.

A invasão colonial é apenas o nono capítulo de um livro muito mais abrangente de John Iliffe, Os Africanos: história de um continente. Jonathan Waltz afirma que este livro constitui a primeira tentativa de traçar e compreender a história africana através do amplo tema da população e da mudança demográfica. Além do mais, nos diz que no livro podemos encontrar quatro grandes áreas: 1) o povoamento do continente africano; 2) a coexistência humana com a natureza; 3) o estabelecimento de sociedades duradouras; e 4) a defesa contra a agressão estrangeira. O capítulo nono, portanto, se insere nesta quarta e última área, buscando estabelecer um panorama geral da primeira fase do colonialismo na África, da invasão à Primeira Guerra Mundial [3].

De um ponto de vista bastante pragmático, a estrutura do capítulo pode ser inferida por meio de suas próprias subdivisões. São elas: 1) a partilha; 2) resistência e negociação; 3) o regime colonial; 4) as primeiras economias coloniais; e 5) ambiente e demografia. Procuremos aprofundar um pouco a nossa visão de cada uma dessas subdivisões.

A primeira subdivisão, a partilha, destina-se a relatar a decisão européia de ocupar a África e os procedimentos seguidos para atingir este fim. Essencialmente, diz Iliffe, o fator determinante para a invasão foram preocupações estratégicas, que consistiam em controlar a costa meridional do Mediterrâneo ou as rotas para a Índia [p. 249]. Desta perspectiva, compreende-se as movimentações francesas na África na década de 1870, a anexação britânica da República da África do Sul (Transval) e a Conferência de Berlim (1884-5).

Resistências e negociação encarrega-se de apresentar o dilema encontrado pelas sociedades africanas entre simplesmente aceitar a ocupação estrangeira, negociar, ou resistir à base da violência. Diversas táticas foram empregadas com o objetivo de manter, tanto quanto possível, a independência e o poder. Um aspecto interessante é notar que aqueles que mais ofereceram resistência foram sociedades militarizadas, islâmicas e sem estados.

Quanto a o regime colonial dois aspectos podem ser enaltecidos. O primeiro diz respeito aos abusos do regime colonial, onde, por exemplo, Iliffe nos traz a informação de que o trabalho forçado foi o abuso mais frequente no início do período colonial [p. 257], e que a maior parte dos primeiros administradores coloniais eram militares que encaravam os africanos como uma ameaça a sua segurança [p. 259]. O segundo aspecto trata da criação do sistema de administração indireta pelos ingleses, o que acabou por se tornar símbolo de sua administração colonial.

Em as primeiras economias coloniais, Iliffe argumenta que, apesar da exploração brutal que se registrou na região equatorial, as ferrovias permitiram a exploração dos minérios e também o desenvolvimento da agricultura em regiões mais afastadas, de modo que a primeira fase do período colonial foi de prosperidade.

Por fim, em ambiente e demografia, dispõe que a violência colonial teve consequências significativas em termos demográficos, mas, à escala continental, a violência foi menos destruidora do que a fome e as epidemias de varíola, doença do sono, doenças venéreas, gripe, etc.

Durante os anos de 1960 de 1970, os africanistas concentraram suas atenções na formação dos Estados africanos e em seu subdesenvolvimento econômico. Já nos anos 1980, o foco mudou para a cultura e para o meio-ambiente. Os Africanos: história de um continente, de John Iliffe, busca trabalhar com ambas as perspectivas [3]. Assumindo, portanto, a leitura do presente capítulo como uma introdução a um curso de história da África independente, podemos obter um primeiro contato um pouco mais genérico sobre este período colonial, que precede as independências, mas cujo nível de detalhes é satisfatório para seu intento.

Jonathan Waltz [3] elenca um pequeno conjunto de críticas ao livro de Iliffe: caracteriza o comportamento africano mais como reativo, ou passivo, do que proativo; frequentemente reduz os fenômenos culturais e históricos a produtos do meio-ambiente e da demografia; e costuma usar relações de causa e efeito. Apesar destes pequenos defeitos, Waltz considera esta uma boa leitura. Já John Travis [2], tratando-se de uma simples publicação blogueira, ao comentar sobre o livro de Iliffe, o faz de modo a traçar constante paralelo com a história da Europa.

Ao meu ver, a crítica de Waltz sobre ter caracterizado os africanos mais como reativos, com base na leitura do presente capítulo, parece um pouco exagerada. Justifico esta opinião com base no argumento desenvolvido por Iliffe no trecho denominado resistência e negociação, onde me parece que aos africanos coube a decisão de como agir diante da situação que se lhes apresentava. Quanto à influência do meio-ambiente e da demografia, parece sim, que Iliffe lhes dá uma grande ênfase, mas não vejo como um defeito, na medida em que o argumento apresentado faz sentido. Em relação à causa e efeito, de um ponto de vista puramente lógico, se é o objetivo é explicar alguma coisa, é inevitável o uso de relações causais (uma olhada rápida nas regras fundamentais de inferência lógica pode ser bastante elucidativo quanto a isso [1]).

Em relação à comparação constante de John Travis entre a história da África e a história da Europa, embora possa até consistir num exercício interessante, não é uma boa ideia se a intenção for de estudar a história da África. Partir desta comparação leva ao julgamento da história da África e de suas sociedades a partir de critérios considerados importantes pelos europeus. Por exemplo, como julgar o “atraso” de uma sociedade qualquer à qual não interessa o desenvolvimento do livre mercado. Aplicada especificamente a este nono capítulo, no entanto, pode facilitar um pouco a compreensão dos fatores que permitiram, de algum modo, a partilha no século XIX.

Um detalhe que me incomodou foi alguns exageros por parte de Iliffe em relação ao número de exemplos dados na defesa de alguns argumentos — o que por vezes fez com que parágrafos atingissem dimensões surpreendentemente grandes, como de página e meia. Por outro lado, este pode também ser o seu ponto forte, na medida em que podemos confiar que John Iliffe não está fazendo generalizações absurdas a partir de um único caso, de uma região específica da África, e aplicando-a ao continente por inteiro.

A leitura deste capítulo é recomendável pois, mesmo havendo críticas como as de Jonatan Waltz, apresenta uma visão consistente e bem fundamentada da primeira fase do colonialismo na África e pode ser um ponto de partida para outros estudos mais aprofundados.

REFERÊNCIAS

[1] COPI, Irving M. Symbolic logic. 5th ed. Upper Saddle River: Prentice Hall, 1979.

[2] TRAVIS, John. Response to “Africans: The History of a Continent”. Disponível em: <http://goo.gl/YzSM6>. Acesso em: 9 abr. 2013.

[3] WALTZ, Jonathan. Africans: The History of a Continent. John Iliffe. Cambridge: Cambridge University Press. Pp. 323. 1995. Disponível em: <http://goo.gl/atHRz>. Acesso em: 9 abr. 2013.

Sobre Vinicius Gregory

Sou bacharel e licenciado em história pela Universidade de Brasília (UnB). Hoje trabalho na área de vendas. Represento a Oceanic, uma marca de cosméticos produzidos pela Racco, sediada em Curitiba/PR. A Oceanic oferece boa margem de lucro na revenda de seus produtos e ótimos incentivos na recomendação de novos consumidores e revendedores. Para criar sua conta na Oceanic e passar a consumir ou revender os produtos, basta acessar o link: http://escritorio.oceanic.com.br/u/vgregory

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Sou bacharél e licenciado em história pela Universidade de Brasília (UnB). E agora estou cursando o mestrado, também em história, também na UnB. Desenvolvo minhas pesquisas na área de história da América.

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